Máscaras, floresta e deslocamento simbólico
Na obra “As máscaras” (2017), duas figuras femininas aparecem sentadas em um sofá de veludo dentro de uma floresta. Ambas utilizam máscaras tibetanas, objetos ritualísticos de outra cultura. A escolha provoca um deslocamento entre tempo, lugar e identidade.
As personagens parecem inseridas em um espaço suspenso, onde natureza e artifício se confundem. A floresta surge como um espaço-templo, recorrente na produção da artista, onde o real se dissolve em camadas de mistério e contemplação.
A Mata Atlântica como vestimenta
Antes do contato com o Carnaval dos Moitas, Sani Guerra já produzia pinturas centradas na Mata Atlântica. Nessas obras, tecidos lançados sobre a vegetação criavam uma inversão simbólica. A floresta passava a vestir a indumentária.
Formas inesperadas emergiam desse gesto, sugerindo aparições latentes no território. Mesmo antes de conhecer os Moitas, a paisagem já anunciava relações entre corpo, máscara, ancestralidade e imaginação popular.
Esculturas e o corpo enraizado
As esculturas em argila aprofundam a dimensão corporal da exposição. A argila, extraída da terra, estabelece uma relação direta com a materialidade dos trajes dos Moitas. As peças exploram volumes que evocam máscaras, folhas, ornamentos e formas biomórficas.
As esculturas criam corporeidades híbridas, situadas entre humano, vegetal e entidade ritual. O gesto manual reforça a fisicalidade do fazer artístico e aproxima a produção contemporânea do fazer popular.
Além do Moita, surgem referências a figuras como os Strohmann, personagens da mitologia rural alemã associados ao espantalho e às máscaras de colheita. As obras cruzam tradições populares e cosmologias distintas.
Carnaval dos Moitas e ancestralidade viva
O Carnaval dos Moitas acontece em Rio Bonito de Cima, localidade rural cercada pela Mata Atlântica. Durante décadas, o isolamento da região contribuiu para preservar a autenticidade da manifestação.
As fantasias são confeccionadas com galhos, folhas e flores retirados do entorno. Cobertos de plantas e máscaras, os foliões circulam anonimamente pela comunidade, reforçando a fusão entre corpo e paisagem.
Esse encontro foi decisivo para a pesquisa de Sani Guerra, que reconheceu na manifestação elementos já presentes em sua prática artística. A exposição Corpo Paisagem poderá ser visitada até o dia 25 de fevereiro.
Sobre a artista
Nascida em Nova Friburgo, Sani Guerra é mestranda em Artes e Design pela PUC-Rio e licenciada em Artes Visuais. Frequentou cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e desenvolve pesquisas sobre memória, corpo, paisagem e ancestralidade.
A artista realizou exposições individuais no Museu da República e no Sesc Nova Friburgo, além de participar de mostras coletivas em instituições como Casa Museu Eva Klabin, Galeria Aymoré e Galeria Simone Cadinelli. Suas obras integram coleções no Brasil e no exterior.
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