DESTAQUEEstácio NotíciasGeral

91% defendem o diálogo, mas violência ainda marca a educação infantil

  • julho 22, 2026
  • 0

Pesquisa mostra que metade dos brasileiros considera aceitável dar tapas em crianças. Especialistas explicam por que práticas punitivas persistem e como romper esse ciclo.

91% defendem o diálogo, mas violência ainda marca a educação infantil

O caso de um pai flagrado por câmeras de segurança agredindo a filha de apenas 3 anos com um chute no rosto reacendeu o debate sobre os limites da educação infantil e o uso da violência como forma de disciplinar crianças.

Publicidade

O tema ganha força com os resultados da pesquisa Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes, realizada pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest.

O levantamento revela uma contradição. Embora 91% dos brasileiros afirmem que conversar e explicar os erros é a melhor forma de educar, 50% consideram aceitável dar um tapa, 37% aprovam gritos e 35% concordam com ameaças de agressão física.

Para a professora do curso de Pedagogia da Estácio, Lorena Bezerra Vieira, esses números mostram que muitas famílias ainda reproduzem modelos autoritários de educação.

“Há uma adesão discursiva às teorias pedagógicas modernas, que defendem o diálogo e o respeito à infância. No dia a dia, porém, ainda prevalece uma visão adultocêntrica, que enxerga a criança como um sujeito subjugado. Isso evidencia uma distância entre o que a educação propõe e a realidade de muitas famílias, ainda marcada por relações de poder e práticas punitivas que atravessam gerações.”

Consequências para o desenvolvimento infantil

Segundo Lorena, práticas autoritárias comprometem o desenvolvimento da criança e afetam a aprendizagem e a convivência social.

“Práticas autoritárias colocam a criança em um estado constante de alerta, prejudicando funções como atenção, memória e concentração, essenciais para a aprendizagem. Além disso, quem cresce em um ambiente marcado pela violência pode apresentar dificuldades de socialização, alternando entre a extrema passividade e a agressividade.”

A pedagoga ressalta que o diálogo e o afeto fortalecem a autonomia. Quando adultos recorrem à violência para resolver conflitos, ensinam que a força é um caminho legítimo para lidar com os problemas. Ela também diferencia limites de punição.

“Enquanto a punição busca o controle pelo medo ou pela privação, o limite promove conscientização e autonomia. A criança precisa compreender a lógica das regras e ser incentivada a reparar as consequências de suas ações, em vez de apenas ser penalizada.”

Modelos familiares influenciam o comportamento dos adultos

A psicóloga, especialista em neuropsicologia e professora da Estácio, Mariana Passamani Almeida, afirma que muitos adultos repetem, sem perceber, os modelos de educação que vivenciaram na infância.

“Há uma distorção entre a forma como a pessoa se percebe e como realmente age. Muitas vezes, ela acredita que educa pelo diálogo, mas, diante do estresse, acaba reagindo de forma automática, repetindo modelos que aprendeu ao longo da vida. Quem está de fora costuma perceber esses comportamentos com mais facilidade, enquanto a própria pessoa, por estar emocionalmente envolvida na situação, tem dificuldade de reconhecer suas reações e refletir sobre elas.”

Violência psicológica também deixa marcas

Mariana alerta que gritos, ameaças e humilhações provocam impactos profundos, mesmo sem causar lesões físicas.

Segundo a especialista, crianças que convivem com violência verbal permanecem em estado constante de alerta, sem saber quando enfrentarão uma nova ameaça, crítica ou grito.

“Isso gera insegurança emocional e pode afetar sua autoestima, sua motivação e sua capacidade de confiar nas pessoas. Muitas crianças crescem acreditando que não são capazes ou que precisam aceitar relações desrespeitosas para receber afeto e atenção, o que pode impactar seus relacionamentos na vida adulta.”

Como romper o ciclo

Para Mariana, romper esse padrão exige que os adultos desenvolvam novas formas de lidar com as próprias emoções e assumam o papel de referência emocional para os filhos.

“O adulto é a principal referência da criança. Refletir sobre a própria história, buscar informações sobre desenvolvimento infantil, fazer terapia quando necessário e aprender estratégias de educação baseadas no respeito são caminhos importantes para interromper esse padrão. O medo afasta; o afeto acolhe. É por meio dessa segurança que a criança aprende a lidar melhor com os limites e os desafios do desenvolvimento.”

Links relacionados:

Violência contra a Mulher: Como Romper o Silêncio

Como reconhecer e romper relacionamentos abusivos

 

Compartilhe:
Publicidade