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Por que precisamos do cinema?

  • setembro 25, 2026
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Muito além do entretenimento, o cinema preserva memórias, constrói representações, movimenta a economia e cria uma forma particular de compreender o mundo e as pessoas.

Por que precisamos do cinema?

Há perguntas que parecem simples até o momento em que tentamos respondê-las. Por que contamos histórias? Por que guardamos fotografias? Há algo especial nas músicas que nos fazem lembrar de alguém — mas o que exatamente nos leva a ouvi-las novamente? E, entre tantas formas de arte e comunicação disponíveis, por que continuamos precisando do cinema?

A resposta começa antes da sala escura, antes dos créditos e até mesmo antes da câmera ser ligada. Precisamos do cinema porque precisamos de histórias. E, por meio delas, conseguimos preservar aquilo que poderia desaparecer, conhecer experiências que não são nossas, reconhecer a nós mesmos em personagens e enxergar a sociedade de outros ângulos.

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O cinema não é apenas uma maneira de ocupar algumas horas do dia. É uma manifestação cultural, uma indústria, um registro de seu tempo e uma ferramenta de criação de imaginários. A própria UNESCO define o setor cinematográfico e audiovisual como um espaço que reúne produção, distribuição e exibição e que conecta profissionais criativos, além de funcionar como instrumento de narrativa, identidade cultural e desenvolvimento econômico inclusivo.

O cinema guarda aquilo que o tempo poderia apagar

Toda sociedade produz imagens sobre si mesma. Algumas são registradas em fotografias, outras em documentos, livros, pinturas, jornais e, também, em filmes.

Uma obra cinematográfica não registra necessariamente a realidade de maneira neutra — um filme é sempre resultado de escolhas de roteiro, direção, fotografia, montagem, atuação e tantas outras. Ainda assim, as imagens produzidas por uma época revelam muito sobre ela: seus valores, seus conflitos, seus costumes, seus medos e aquilo que seus artistas consideravam importante contar.

É por isso que preservar o audiovisual também significa preservar memória.

No Brasil, essa dimensão aparece inclusive nas atuais diretrizes para o setor. O Plano de Diretrizes e Metas do Audiovisual 2026–2035, apresentado pelo Ministério da Cultura, estabelece entre seus princípios o direito à memória, ao patrimônio e à preservação audiovisual, além do direito de acesso à criação e à fruição de conteúdos audiovisuais brasileiros.

Um filme, portanto, não termina necessariamente quando os créditos sobem. Ele pode continuar existindo como documento cultural de uma época e como possibilidade de encontro entre diferentes gerações.

A força de se reconhecer em uma história

Existe outra função fundamental do cinema: representar.

Durante muito tempo, diferentes grupos sociais tiveram pouco espaço nas narrativas cinematográficas ou foram apresentados a partir de estereótipos. A escolha de quais personagens aparecem, quais histórias são contadas e quem tem a oportunidade de ocupar o lugar de protagonista não é apenas uma questão estética. Ela participa da construção do imaginário coletivo.

Quando uma pessoa encontra na tela uma experiência semelhante à sua, o cinema pode produzir reconhecimento. Quando encontra uma realidade completamente diferente, pode produzir contato com o outro.

Essa diferença é importante.

Uma criança pode assistir a uma história sobre uma família diferente da sua. Um jovem pode conhecer, por meio de um filme, uma experiência que nunca viveu. Um adulto pode se reconhecer em um personagem décadas mais novo ou mais velho. Uma pessoa pode descobrir que um sentimento que imaginava ser exclusivamente seu também foi transformado em história por outra pessoa.

O cinema cria, assim, uma espécie de ponte.

Não porque um filme seja capaz de fazer todos pensarem da mesma maneira, mas justamente porque uma mesma obra pode provocar interpretações diferentes. O espectador não recebe apenas uma história pronta: ele a relaciona com suas próprias experiências.

Ver o mundo pelos olhos de outra pessoa

É possível conhecer uma realidade sem ter vivido aquela realidade?

O cinema não substitui a experiência concreta, nem transforma automaticamente um espectador em especialista sobre a vida de outra pessoa. Mas ele pode ampliar o campo de experiências às quais temos acesso.

Um filme pode levar o público para outra época, outro país, outra família, outra classe social, outra geração ou para uma situação que jamais faria parte de sua própria rotina.

É uma das forças particulares da narrativa cinematográfica: durante algumas horas, o espectador acompanha uma vida que não é a sua.

Essa capacidade de criar encontros entre diferentes experiências ajuda a explicar por que a UNESCO associa o cinema à diversidade cultural e ao diálogo. Em iniciativas voltadas à cultura cinematográfica, a organização destaca o potencial do cinema para colocar diferentes expressões culturais em evidência e promover o contato entre elas.

Isso não significa que todo filme produza compreensão ou empatia automaticamente. Obras também podem reproduzir preconceitos, simplificar conflitos ou apresentar determinadas comunidades de maneira distorcida. Justamente por isso, assistir também exige pensamento crítico.

E é aí que o cinema deixa de ser apenas aquilo que vemos e passa a ser aquilo que fazemos com o que vimos.

O cinema também nos ensina a questionar

Nem todo filme precisa oferecer respostas.

Alguns dos filmes mais marcantes são justamente aqueles que terminam e deixam um questionamento no lugar da certeza.

O que teria acontecido se aquele personagem tivesse escolhido diferente? Por que aquela sociedade funciona daquela maneira? O que eu faria naquela situação? Por que aquela história me incomodou? Por que aquela cena permaneceu na minha cabeça?

O cinema pode transformar questões abstratas em experiências concretas.

Falar sobre luto é uma coisa. Acompanhar um personagem atravessando uma perda é outra. Discutir desigualdade é uma coisa. Observar como ela interfere na vida de personagens durante duas horas é outra. Ler sobre determinado período histórico é uma experiência; assistir a uma obra construída a partir daquele contexto é outra forma de entrar em contato com ele.

Isso não torna o filme uma substituição para livros, aulas, pesquisas ou experiências reais. Torna-o mais uma maneira de pensar.

E talvez essa seja uma das respostas mais importantes para a pergunta que dá nome a esta matéria: precisamos do cinema porque uma sociedade que conta histórias também precisa de espaços para questionar as histórias que conta sobre si mesma.

O cinema como retrato de um país

No caso brasileiro, essa discussão ganha uma dimensão ainda maior.

O audiovisual é reconhecido pela própria ANCINE como um setor estratégico tanto culturalmente — como meio de afirmação da identidade — quanto economicamente, por gerar empregos e movimentar uma cadeia produtiva.

Os números ajudam a dimensionar esse impacto.

Segundo o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro 2025, divulgado pela ANCINE em agosto de 2026, o Brasil encerrou 2025 com 3.544 salas de cinema em funcionamento, o maior número da série histórica. Naquele ano, os cinemas receberam 112,8 milhões de espectadores, enquanto os filmes brasileiros atraíram 11,1 milhões de pessoas, correspondendo a 9,9% do público.

Também foram registrados 78.434 empregos formais no setor audiovisual e 4.554 estabelecimentos empregadores. O mesmo levantamento estima que, para cada R$ 1 de valor adicionado diretamente pelo audiovisual, exista um efeito adicional entre R$ 1,81 e R$ 1,97 no conjunto da economia.

Ou seja: falar de cinema também é falar de trabalho.

Por trás de uma obra existem roteiristas, diretores, produtores, atores, diretores de fotografia, montadores, profissionais de som, figurinistas, cenógrafos, técnicos, distribuidores, exibidores e muitos outros trabalhadores.

Quando um filme brasileiro chega a uma sala de cinema, existe uma cadeia inteira por trás daquela sessão.

Produzir também é escolher quais histórias terão espaço

Por isso, discutir cinema brasileiro não significa apenas discutir quantas pessoas compraram ingressos.

Significa perguntar quais histórias conseguem ser produzidas, distribuídas e vistas.

Uma indústria audiovisual saudável precisa de produção, mas também de circulação e acesso. Não basta que uma história seja filmada se ela não encontra público. Da mesma forma, um público que só tem acesso a uma parcela muito pequena da produção disponível conhece apenas uma parte das histórias que poderiam chegar até ele.

O próprio Plano de Diretrizes e Metas do Audiovisual 2026–2035 coloca entre seus princípios a valorização da diversidade e das identidades culturais, a liberdade de expressão e criação, o acesso à cultura e o desenvolvimento econômico sustentável do ecossistema audiovisual.

A discussão sobre cinema, portanto, também é uma discussão sobre direito cultural.

Quem pode contar histórias? E quais vozes conseguem chegar às telas? De que depende a produção de um filme — e quem tem acesso a essas obras? Quais histórias chegam às salas? Quais permanecem fora delas?

Essas perguntas fazem parte do cinema tanto quanto câmera, roteiro e montagem.

A sala de cinema é um espaço coletivo    

Há ainda uma dimensão que os números não conseguem medir completamente.

Uma pessoa pode assistir a um filme sozinha em casa, no computador ou no celular. O audiovisual se tornou muito mais acessível e ganhou novas formas de distribuição. Mas a experiência coletiva da sala de cinema continua tendo uma característica particular.

Durante algumas horas, pessoas diferentes compartilham o mesmo espaço e acompanham a mesma história.

Elas podem rir juntas. Algumas riem juntas. Outras se emocionam. Alguém permanece em silêncio. E, ao final, pessoas que acabaram de assistir ao mesmo filme podem sair da sessão com interpretações completamente diferentes.

E tudo isso também faz parte da experiência cinematográfica.

O cinema cria um espaço em que uma história privada se transforma, por alguns instantes, em experiência pública.

É possível que dez pessoas assistam ao mesmo filme e saiam com dez interpretações diferentes. Isso não é uma falha da obra. É uma das possibilidades da arte.

O cinema não é uma fuga do mundo

Existe uma ideia recorrente de que assistir a filmes é uma forma de escapar da realidade.

Às vezes, é mesmo. E não há necessariamente problema nisso.

A ficção pode oferecer descanso. Pode proporcionar diversão. Pode permitir que alguém passe algumas horas sem pensar nas próprias preocupações. O entretenimento também possui valor.

Mas reduzir o cinema à fuga é ignorar tudo aquilo que pode acontecer enquanto estamos olhando para uma tela.

Às vezes, entramos em uma sala para esquecer o mundo e saímos pensando sobre ele.
Também é possível assistir a uma história inventada e reconhecer nela algo absolutamente verdadeiro.
Ao acompanhar personagens que nunca conheceremos, podemos descobrir algo sobre nós mesmos.

É por isso que o cinema não precisa escolher entre entreter e provocar reflexão. Ele pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Então, por que precisamos do cinema?

Precisamos porque precisamos de memória.
Também precisamos de representação e da possibilidade de conhecer histórias que não são as nossas.
O cinema nos permite questionar as imagens que construímos sobre o mundo e compreender que cultura também é uma maneira de entender quem somos.
Além disso, contar histórias é uma forma de preservar aquilo que poderia desaparecer.
E existe ainda outra razão: em uma realidade cada vez mais rápida, o cinema nos convida a parar.

Precisamos porque contar histórias é uma das formas pelas quais seres humanos compartilham experiências que não poderiam ser transmitidas apenas por números ou informações.

E precisamos porque, em meio a uma realidade cada vez mais acelerada, o cinema ainda nos pede uma coisa que parece simples, mas se tornou rara: parar para olhar.

Olhar para outra pessoa, para outra época, para uma realidade diferente.

Olhar para nós mesmos.

Essa é a resposta.

Não precisamos do cinema porque não conseguimos viver sem entretenimento. Precisamos do cinema porque uma sociedade que deixa de imaginar, registrar, questionar e compartilhar suas histórias também começa a perder parte da capacidade de compreender a si mesma.

Um filme termina quando a tela escurece.
Mas a pergunta que ele deixa pode continuar muito depois dos créditos.
E é justamente nesse momento que o cinema deixa de ser apenas aquilo que assistimos.

Ele passa a ser aquilo que pensamos.

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