Gato e bebê podem conviver? A rotina real de Kioshy e Julia
- setembro 9, 2026
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Especialistas em felinos contam a rotina real da filha com o gato da família e o que diz a ciência sobre riscos e benefício
Especialistas em felinos contam a rotina real da filha com o gato da família e o que diz a ciência sobre riscos e benefício

Muita gente pergunta se gato e bebê podem conviver sem problemas e a resposta, segundo veterinários e pediatras, é sim, desde que alguns cuidados básicos sejam seguidos. Um bom exemplo mora na casa da veterinária Lucilla Montero, especialista em felinos e uma das donas do Hospital Veterinário Animamed, em Nova Friburgo.
Na rotina das quatro da tarde, Julia, três meses, dorme no berço portátil perto da janela. Esparramado ao lado, montando guarda como se tivesse assinado um contrato de babá, está Kioshy o gato SRD, de pelagem branca e preta, que passa o dia inteiro ali, vigiando cada suspiro da pequena. De vez em quando, ele desaparece por alguns minutos e volta com uma folha na boca, que deposita cuidadosamente ao pé do berço.
Presente entregue, missão cumprida, ele volta a campana. Na família, já virou piada que, na verdade, foi Kioshy quem adotou a Julia, e não o contrário. “As pessoas acham que eu, por ser veterinária, simplesmente jogo o bebê no meio dos bichos e finjo que está tudo certo”, brinca Lucilla. “Não é bem assim. Tem método nessa loucura só que, sim, também tem loucura. E tem um gato que insiste em me mostrar o quanto ele é um ótimo caçador, mesmo trazendo só folha.
” Lucilla tem certificação Cat Friendly selo internacional que atesta clínicas e profissionais preparados para lidar com gatos de um jeito que reduz o estresse do animal. Seu marido, o também veterinário Kauê Montero, tem a mesma certificação, o que faz da casa, nas palavras dele, “provavelmente o lugar do bairro com mais diploma por metro quadrado dedicado a gato”. Os dois se conheceram cuidando de bichanos e, décadas depois, viraram pais de primeira viagem: Lucilla teve Julia aos 44 anos, depois de uma vida inteira em que os gatos já eram, para todos os efeitos, os primeiros filhos da casa. “Foi engraçado observar o Kioshy nos primeiros dias”, conta Kauê. “Ele cheirou o berço, cheirou a Julia, e acho que decidiu ali mesmo que aquele pacotinho novo agora fazia parte do território dele para proteger. Desde então, virou sombra.”
A convivência entre gato e bebê tem respaldo científico e as boas notícias são muitas. Um estudo de 2025 com 1.050 bebês, liderado pelo pesquisador Jacob McCoy, encontrou algo que soa quase contraintuitivo: a exposição a alérgenos de cachorro reduziu em 48% o risco de asma até os cinco anos de idade. A explicação está na chamada “hipótese da higiene”.
O contato precoce com os microrganismos que vêm junto com o pelo do animal funciona como um treino para o sistema imunológico do bebê, ensinando o corpo a diferenciar ameaça real de coisa inofensiva.
Do outro lado do Atlântico, uma pesquisa austríaca citada pela pediatra Neide Pereira, do Comitê de Alergia e Imunologia da Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro (Soperj), reforça a tese: quando a mãe já convive com animais antes da gravidez e o bebê nasce dentro dessa rotina, a chance de desenvolver alergias cai o mesmo padrão observado em crianças de zona rural, cercadas de bichos a vida inteira. Até os gatos, que costumam causar mais alergia que os cães, entram nessa conta: quanto mais cedo o convívio começa, maior a tolerância que o corpo desenvolve.
Quem quiser se aprofundar nos estudos por trás desses números pode conferir a análise científica completa feita pela equipe da Animamed, com a revisão técnica da Dra. Lucilla Montero e do Dr. Kauê Montero.
“Meu neto tem cachorro, sou totalmente a favor. Não vejo contraindicação”, resume a pediatra Leda Amar de Aquino desde que, ela faz questão de lembrar, o animal esteja vacinado e tome banho regularmente.
É exatamente a régua que Lucilla e Kauê usam em casa. Kioshy está com a carteirinha em dia, é acompanhado por dois veterinários que moram sob o mesmo teto “vantagem competitiva injusta”, diz Lucilla e nunca fica sozinho no cômodo com Julia sem supervisão de um adulto. “Sozinho” é a palavra-chave, e é sobre ela que mora o outro lado da história.
Porque, convenhamos, gato educado também tem limite. E aqui a conversa muda de tom. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) mostra que as internações por mordida de animal no SUS saltaram 43,4% em cinco anos, e crianças pequenas estão entre as principais vítimas não porque o bicho seja “malvado”, mas porque um animal incomodado reage, e um bebê ou uma criança pequena não tem repertório para prever isso.
Ao portal Band Paraná, o adestrador Cristian Jean Baroni é direto: colocar a mão nos olhos, na boca ou puxar o pelo do animal pode provocar uma reação mesmo em bichos mansos. É por isso que médicos e veterinários repetem, em uníssono, o mesmo mantra: criança pequena nunca fica sozinha com o animal, ponto final.
Lucilla concorda e vai além, com aquele bom humor de quem já ouviu a pergunta cem vezes: “As pessoas me perguntam se eu tenho medo do meu próprio gato perto da Julia. Tenho respeito. É diferente. Eu confio nele, mas confiança não substitui supervisão isso vale para gato, cachorro e, convenhamos, para qualquer visita que eu deixe sozinha na sala com o controle remoto.”
Há também o capítulo, menos glamouroso, da limpeza. Segundo o médico veterinário Marcio Mota, do Amarvet’s Hospital Veterinário, remover pelos, ácaros e sujeira de pisos e superfícies com regularidade é parte essencial do pacote de biossegurança quando bebê e pet dividem o mesmo teto. Nem os “presentes” de folha, por mais bem-intencionados que sejam, deveriam ficar soltos perto do berço sem supervisão.
Depois de meses testando a própria teoria na prática com o reforço técnico de dois profissionais Cat Friendly em casa , Lucilla resume a rotina em poucas regras, ditas com a irreverência de quem trocou fralda e vacinou gato na mesma tarde:
• Vacina em dia, sempre do Kioshy e, no tempo certo, da Julia também.
• Unha aparada “gato de manicure feita dá menos susto”.
• Zero momento sozinho bebê e pet só ficam juntos com um adulto por perto, sem exceção.
• Cama é território exclusivo da Julia Kioshy tem cama própria ao lado do berço, e ninguém reclamou até hoje.
• Limpeza como hábito, não como faxina anual pelos e folhas somem do caminho todo dia, não só quando a sogra avisa que vem visitar.
Gato pode dormir na mesma cama que o bebê?
Não é recomendado. Mesmo um gato manso pode reagir de forma imprevisível durante o sono, e há risco de sufocamento para bebês pequenos. O ideal é que o animal tenha sua própria cama, por perto, mas fora do berço.
Gato traz doença para o bebê?
O risco existe, mas é baixo e controlável: gato vacinado, vermifugado e com acompanhamento veterinário regular reduz drasticamente a chance de transmitir qualquer doença ao bebê.
Crescer perto de gato faz mal para bebês com histórico de alergia na família?
Pelo contrário: estudos apontam que a exposição precoce a alérgenos de animais pode reduzir o risco de asma e alergias respiratórias ao longo da infância, por estimular o sistema imunológico desde cedo.
Como apresentar o gato ao bebê recém-nascido?
Aos poucos e sempre supervisionado: deixe o gato cheirar o berço e o cheiro do bebê antes do contato direto, sem forçar aproximação, e nunca deixe os dois sozinhos no mesmo ambiente nos primeiros meses.
No fim das contas, a ciência dá razão ao instinto de Lucilla: crescer perto de um animal saudável, vacinado e bem socializado tende a fazer bem para o corpo e para o coração. O segredo, como em quase tudo que envolve bebês e bichos, não está em escolher um lado, mas em nunca tirar os olhos da cena. Kioshy, sentinela de plantão, que o diga.
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Jornalista com experiência em assessoria de imprensa, telejornalismo e Webwriting
